Eleições no Pará -1994 e 2026 — quando o passado se parece com o presente

Atualidades Política

Por Ícaro Gomes

A política paraense tem dessas coisas que só quem é da terra entende e, de vez em quando, parece até que o tempo dá uma volta grande pelo rio Xingu e traz de volta histórias já vividas, só que com novos personagens e novos enredos. O cenário eleitoral de 2026 é um retrato bem nítido disso, lembrando — e muito — a marcante disputa eleitoral de 1994.

Naquele tempo, o então bem avaliado governador Jader Barbalho deixou o comando do Estado para disputar uma vaga no Senado Federal — e levou. Na verdade, eram duas cadeiras em jogo, e o povo paraense escolheu Jader em primeiro e Ademir Andrade na segunda vaga. Antes de sair, como quem ajeita a casa antes de viajar, Jader tratou de organizar sua sucessão, apostando no nome forte de Jarbas Passarinho, um candidato de peso, com estrada política e respaldo da máquina estadual. Para se ter ideia, Passarinho vinha embalado por uma base de mais de 130 prefeitos e prefeitas, um verdadeiro “time de responsa”.

Jarbas Passarinho disputou em 94
O médico Almir Gabriel venceu em 94

Mas, como bem diz o caboclo paraoara por aqui, “nem sempre o vento corre pro lado que a gente espera”. O que parecia caminho certo acabou tomando outro rumo. Mesmo largando na frente no primeiro turno, Jarbas foi derrotado no segundo turno pelo médico Almir Gabriel, que, com jeito manso e discurso de mudança, conseguiu captar o sentimento do povo. E olha que não tinha lá essa estrutura toda — contava com o apoio de apenas oito prefeitos, “dava pra contar nos dedos das mãos”. No segundo turno, Almir virou o jogo com folga: 62,7% contra 32,3%. E não parou por aí — em 1998, Almir ainda foi reeleito, vencendo o próprio Jader, que voltou à disputa pelo governo.

Passados mais de trinta anos, o Pará volta a viver um cenário que, guardadas as proporções, conversa diretamente com aquele momento histórico.

Coincidências da politica paraense

O bem avaliado governador Helder Barbalho deixou o cargo no último dia 2 de abril, já de olho no Senado Federal, que novamente terá duas vagas em disputa em 2026. Enquanto isso, seu grupo político se movimenta para manter o comando do Executivo estadual. A estratégia não é novidade: transferir prestígio, força política e o peso da máquina para garantir a continuidade no poder, contando — segundo fontes — com o apoio de mais de 130 prefeitos e prefeitas no apoio a vice que se tornou governadora Hana Ghassam. É aquele velho ditado: “quem tem grupo, tem caminho, tem trilha”.

Só que o clima, como naquela época, não é de calmaria, não. A oposição vem ganhando corpo e apresenta um nome competitivo: o pré-candidato Doutor Daniel, também médico, assim como Almir Gabriel foi no passado. Ele surge como um dos principais adversários no cenário atual e aparece liderando a maioria das pesquisas divulgadas até aqui, já tendo renunciado a prefeitura de Ananindeua, com boa avaliação e o desejo de disputar a eleição ao governo.

Daniel é decidido e percebe o momento bom
A tentativa com Hana de manter o Poder

 O paralelo entre os dois períodos revela um padrão que parece se repetir na política paraense: governadores que deixam o cargo mirando o Senado, grupos que tentam manter o poder com sucessores escolhidos a dedo e uma oposição que cresce justamente quando o povo começa a dar sinais de que quer mudança.

Se lá em 1994 o favoritismo não foi suficiente para garantir a continuidade, em 2026 a história ainda está sendo escrita. Mas uma coisa o paraense já mostrou — e mostrou direitinho: quando entende que é hora de mudar, muda mesmo.

Mais do que coincidência, essa comparação deixa uma lição que ecoa forte e a certeza que na democracia, poder não se herda — se conquista, no voto, na luta e no convencimento.

E no Pará, como a gente bem sabe, “o jogo só acaba quando o juiz apita” — ou melhor, quando o último voto é contado.

  • O autor é especialista em educação, comunicador social, titular do Blog e sócio benemérito da República do Avuado.

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