Há expressões que nascem do cotidiano e se transformam em identidade. No município de Maracanã, costa paraense, dizer que o povo é “papa gó” é mais do que um apelido — é um selo afetivo que revela tradição, paladar e pertencimento. Eu, particularmente, tenho muito orgulho de ser um autêntico “papa gó”. Mas, em tempos em que a excelência também pede reconhecimento formal, surge uma pergunta que ecoa com elegância e propósito: como transformar esse patrimônio cultural em um selo oficial de origem e qualidade?

É nesse cenário que ganha destaque o trabalho criterioso conduzido pelo Instituto Federal do Pará (IFPA), por meio dos campi Rural de Marabá e Castanhal, em parceria com a Secretaria de Turismo de Maracanã, a AUREMAR e a Diretoria de Pesca do município. Trata-se de uma pesquisa aprovada em 2025, que agora ganha corpo em campo, e de iniciativa da professora maracanaense Suzeny Rechene, com uma imersão de cinco dias em Maracanã Minha Paixão — daquele jeitinho bem nosso, ouvindo o povo, sentindo o território e respeitando os saberes tradicionais.

A metodologia é robusta e sofisticada, como pede um processo dessa natureza. Envolve entrevistas com pescadores experientes, consumidores atentos, autoridades locais e especialistas da área, todos contribuindo com suas vivências e percepções. Paralelamente, são realizadas análises físico-químicas e microbiológicas da tão apreciada pescadinha gó, buscando comprovar, com rigor científico, aquilo que o paladar paraense já reconhece há gerações: sua singularidade.

Mas afinal, como se dá esse reconhecimento? O selo de Indicação Geográfica (IG) é concedido a produtos ou serviços que possuem qualidades únicas diretamente ligadas ao seu território de origem — seja pelo clima, pelo saber-fazer tradicional ou pelos recursos naturais locais. É um processo técnico e detalhado, que exige comprovação histórica, cultural e científica de que aquele produto não pode ser replicado com a mesma autenticidade em outro lugar. Em outras palavras, é o mundo reconhecendo oficialmente aquilo que o povo já sabe de cor e de coração.

No Pará, esse movimento já apresenta resultados inspiradores. A tradicional Farinha de Bragança, por exemplo, conquistou seu selo de IG e hoje é símbolo de qualidade, tradição e valorização cultural. O mesmo caminho vem sendo trilhado por outros produtos emblemáticos, como o cacau da Transamazônica na região Xingu e o queijo do Marajó, cada qual carregando consigo o sabor e a história de seu território.

Mais do que um título, a Indicação Geográfica representa um verdadeiro divisor de águas. Ela fortalece a economia local, impulsiona o turismo gastronômico, protege a cultura popular e, sobretudo, valoriza quem está na base de tudo: o pescador. É desenvolvimento com identidade, é progresso com raiz — como a gente gosta por aqui.

Por isso, a pesquisa em curso não é apenas um estudo técnico — é um gesto de reconhecimento à cultura alimentar de um povo. É a possibilidade concreta de ver a pescada Gó de Maracanã, a Sua Excelência a Gó, ocupar o lugar que lhe é de direito, com chancela oficial e projeção além das marés paraenses.
Fica o aplauso, cheio de esperança e orgulho, a todos os envolvidos. E que em breve, com aquele sotaque arrastado e o coração cheio, a gente possa dizer: a gó de Maracanã agora tem IG.

Da Redação
Ícaro Gomes
Imagens cedidas por SETUR-MAR

