Por Gerson Ícaro Gomes
Chegamos ao momento em que a eleição deixa de ser apenas cenário e passa a ser decisão. No Pará e no Brasil, os últimos dias mostram disputas competitivas, abertas, movimentos de última hora e um eleitorado que parece vem decidindo o voto nas últimas duas semanas. No cenário nacional, pesquisas divulgadas nesta reta final mostram diferenças apertadas entre os principais candidatos e uma parcela do eleitorado ainda sujeita a mudanças.
O cenário eleitoral paraense chega à véspera do primeiro turno com uma sensação conhecida: a de que alguma coisa pode mudar, embora quase ninguém consiga dizer exatamente o quê. Em muitas cidades, a campanha foi morna, com silêncio entre os eleitores e manifestações pontuais. De um lado, Hana Ghassan, do MDB, apoiada por uma estrutura política construída ao longo de sete anos pelo ex-governador Helder Barbalho, candidato ao Senado. São prefeitos, deputados, vereadores, vice-prefeitos e lideranças espalhados pelo Estado — em alguns municípios, adversários históricos acabaram, pelo menos eleitoralmente, na mesma onda azul.

Do outro, a onda laranja do médico Dr. Daniel, do Podemos, que construiu uma candidatura que começou menor e foi ganhando corpo. O movimento lembra, em alguns aspectos, a trajetória de Almir Gabriel nos anos 1990, numa candidatura que cresce durante a própria campanha e enfrenta uma estrutura política tradicional.
Daniel concentrou o discurso em saúde, produção, pedágios e água. Hana apresentou as realizações do atual governo e prometeu ampliar investimentos, inclusive com novos hospitais regionais. Mas foi a água que talvez tenha furado a bolha eleitoral. A privatização da Cosanpa e a concessão dos SAAES nos municípios paraenses à Águas do Pará transformaram tarifa, qualidade do serviço, taxa de disponibilidade e abastecimento em assuntos de conversa nas ruas. A venda de uma empresa que parecia condenada ao prejuízo acabou produzindo um “quiprocó” político que ninguém esperava. Tudo isso reunido, realmente pode entregar à vitória ao médico em primeiro turno.
As pesquisas também mostram um cenário dividido. A Quaest, divulgada em 26 de setembro, colocou Daniel com 41% e Hana com 32% no primeiro turno. Já a Doxa, com campo de 24 a 28 de setembro, apontou Hana à frente de Daniel tanto no primeiro turno, como na simulação de segundo turno. Ou seja: há sinais de mudança, mas não há consenso estatístico sobre o tamanho dela nem sobre a possibilidade de decisão no primeiro turno. Os institutos Ampla, Simetria, Quaest, Futura e Veritá colocam Daniel à frente; Doxa e Real Time, colocam Hana.

No Brasil, a fotografia também é de disputa apertada. O Datafolha mais recente registra Lula com 45% dos votos válidos contra 40% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno; no segundo turno, 48% a 45%, dentro da margem de erro. A única que pontua fora da margem de erro, todas as outras pesquisas colocam os dois candidatos principais em empate técnico.
No Pará, portanto, a pergunta é se a onda de mudança conseguirá atravessar as estruturas políticas tradicionais. No Brasil, a coisa está mesmo mais encaminhada a se resolver no segundo turno.
- O autor é especialista em educação, consultor político e titular do Blog.

