As cidades do Pará que carregam nomes portugueses — e Maracanã já foi Cintra

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Quando Portugal virou mapa no Pará

Quem percorre o mapa do estado do Pará pode ter a sensação de estar fazendo uma pequena viagem por Portugal. Não é coincidência. Muitos nomes de municípios paraenses foram trazidos para a Amazônia durante o período colonial, especialmente no século XVIII, quando a administração portuguesa reorganizou vilas e territórios. Em diversos casos, denominações indígenas foram substituídas por nomes de localidades portuguesas, numa estratégia que também representava a presença e a autoridade da Coroa portuguesa sobre a região.

Recentemente, o jornalista castanhalense Eládio Reis – @jornalistaeladioreis em viagem à Portugal, repercutiu o assunto auxiliado pela advogada Jack Gadelha – @adv.jackgadelha__, natural de Castanhal e que reside em Viana do Castelo; a influenciadora Mayara Freitas – @mayarafreittas, e o jornalista e escritor Antônio Prado – @pradojornalista. E o Blog se inspirou no vídeo para ir mais a fundo.

Eládio Reis

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa herança portuguesa no Pará está no Baixo Amazonas. Alenquer, por exemplo, surgiu a partir da antiga aldeia de Surubiu e recebeu a denominação portuguesa quando foi elevada à categoria de vila. O nome permanece até hoje e faz referência à cidade portuguesa de Alenquer. Na mesma região, Almeirim também preserva uma denominação de origem portuguesa.

Alenquer

Outro caso é Aveiro, município paraense que compartilha o nome com a conhecida cidade portuguesa. No nordeste do Estado, região dos Caetés, Bragança – a nossa capital da farinha “baguda” representa outro capítulo dessa influência. A denominação está relacionada à Casa de Bragança, importante dinastia da monarquia portuguesa, e atravessou os séculos até se transformar em uma marca própria da cultura amazônica. Aliás, uma das cidades mais culturais do estado e que preserva um sentimento muito peculiar chamado de “bragantinidade“.

Bragança

Ainda na região dos Caetés, Ourém – bem na ilharga do majestoso rio Guamámantém no Pará o mesmo nome de uma cidade portuguesa. De volta ao Baixo Amazonas, Óbidos também integra essa cartografia de topônimos lusitanos, enquanto Portel, no arquipélago do Marajó, conserva outra denominação de origem portuguesa.

Ourém

Porto de Moz é mais um exemplo dessa presença histórica. A vila foi criada em 1758, durante o processo de reorganização administrativa promovido pela Coroa portuguesa na Amazônia. Já Santarém, uma das principais cidades paraenses, recebeu a denominação ainda no século XVIII, substituindo o antigo nome indígena associado à região.

No Marajó, Soure e Salvaterra também carregam nomes relacionados à geografia portuguesa. No extremo nordeste paraense, na divisa com o Maranhão, está Viseu, outro município que compartilha sua denominação com uma cidade portuguesa. E há ainda São Caetano de Odivelas, cujo nome remete a Odivelas, em Portugal.

Mas a influência portuguesa sobre a nomenclatura paraense não se resume aos nomes que permanecem atualmente nos mapas municipais. Ao longo da história, várias localidades tiveram suas denominações alteradas, enquanto outras deixaram de figurar como municípios e passaram à condição de distritos ou localidades.

Vigia de Nazaré

Entre esses registros históricos estão Sousel (Souzel), às margens do rio Xingu, denominação associada à atual área de Senador José Porfírio. Pombal e Veiros também aparecem na antiga organização territorial da região de Porto de Moz. Já Condeixa, outro nome de origem portuguesa, permanece como importante distrito de Salvaterra.

E, entre as mudanças de nome mais interessantes da história paraense, está a de Maracanã. O município, localizado no nordeste do Estado, nem sempre teve o nome pelo qual é conhecido atualmente. Após ser elevado à categoria de vila, em 1755, durante o governo de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, passou a ser denominado Cintra, ou São Miguel de Cintra, em referência à localidade portuguesa de Sintra.

A denominação permaneceu por mais de um século, até que, em 1897, o município recuperou oficialmente o nome Maracanã. A mudança devolveu à localidade uma denominação de forte inspiração amazônica, associada à ave maracanã e à identidade indígena presente na formação histórica da região.

A história de Maracanã mostra que o processo de ocupação portuguesa não foi apenas uma questão de administração territorial. Os nomes escolhidos para vilas e povoações também funcionavam como uma forma de reproduzir, na Amazônia, referências geográficas, religiosas, políticas e culturais de Portugal.

Vila Alter do Chão

O levantamento de localidades paraenses que preservam nomes de origem lusitana é amplo e inclui municípios, distritos, vilas e povoados. Entre os exemplos estão Alenquer, Almeirim, Alter do Chão, Aveiro, Barcarena, Beja, Belém, Bragança, Chaves, Faro, Melgaço, Monte Alegre, Nazaré, Óbidos, Odivelas, Oeiras do Pará, Ourém, Porto de Mós, Salvaterra, Santarém, Soure, Vigia, Vila do Conde e Viseu.

É importante, entretanto, fazer uma distinção: nem todas essas denominações correspondem atualmente a municípios independentes. Algumas são vilas, distritos ou localidades pertencentes a outros municípios. Ainda assim, ajudam a revelar a dimensão da influência portuguesa na formação da toponímia paraense.

Com o passar dos séculos, esses nomes ganharam novos significados. A população indígena, os povos africanos, os ribeirinhos, os nordestinos e as sucessivas gerações de amazônidas transformaram essas localidades em espaços com identidade própria.

 

Assim, Santarém não é Portugal, Bragança não é Portugal, Viseu não é Portugal e Maracanã definitivamente não é Cintra. São lugares amazônicos, construídos por histórias, culturas e personagens próprios.

Os nomes atravessaram o Atlântico, mas ganharam vida nova às margens dos rios, dentro da floresta, nas praias, nos campos e nas cidades paraenses. Portugal deixou marcas profundas no mapa, mas foi a Amazônia que deu a esses nomes uma nova identidade — paraense, brasileira e genuinamente amazônica.

 

Da Redação

Ícaro Gomes

Imagens: Google/Reprodução e Redes Sociais

 

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