Marinaldo e Marivaldo e a tragédia que virou devoção popular no Cemitério São Jorge

Identidade Variedades

Por Ícaro Gomes

 

Marituba era a vila operária ainda na década de 80, um distrito pertencente ao município de Ananindeua, organizada apenas pelo centro e poucos bairros como a histórica Pedreirinha, o Uriboca e a Colônia. A tradicional Rua da Assembleia, hoje Travessa 1º de maio era o endereço da família deste escritor (dona Peta, seu Veríssimo e a mana Lene), assim como, a via abrigava a casa de dona Alzira, dona Dadá, a Chica Biriteira, o professor Rubenildo, o magistral e saudoso Aramis, o fantástico Dico Moreira, o cunhado de todos Zé Júlio, o velho Matias, o único dentista o Bento, o Alfaiate João, a Assembleia de Deus (claro!) e o sitio do famoso cantor da época Alipio Martins.

Dona Alzira era mãe de Marinaldo e Marivaldo, de 8 e 10 anos, que viviam em Belém com o pai seu Raimundo Ribeiro, já que o casal era separado. Um meio que odiava o outro. Seu Raimundo trabalhava em Belém e trazia os filhos para visitar a mãe em Marituba, mas, diante da grande amizade com dona Peta e seu Veríssimo, pais deste escritor, confiava os meninos para ficar alguns dias na nossa casa, daí nasceu a amizade forjada por inúmeras brincadeira infantis da época.

Uma história que atravessa gerações

Entre as muitas histórias que habitam os cemitérios de Belém, poucas despertam tanta emoção quanto a dos irmãos Marinaldo e Marivaldo. Conhecidos por milhares de visitantes do Cemitério São Jorge, na Marambaia, os dois meninos transformaram-se em símbolos da religiosidade popular paraense.

Passadas várias décadas desde a tragédia que interrompeu suas vidas, seus nomes continuam vivos na memória coletiva da cidade. Flores, brinquedos, velas e pequenos presentes deixados sobre o jazigo demonstram que a história dos irmãos permanece presente no coração de muitos paraenses.

A noite que mudou tudo

Os relatos preservados pela tradição oral apontam para uma tragédia familiar ocorrida em uma noite marcada pela falta de energia elétrica. Dona Peta, minha genitora, ajudou a contar um pouco mais sobre o caso. Marinaldo e Marivaldo eram crianças que sofriam de crises asmáticas. Na tentativa de socorrê-los, o pai, “Seu Raimundo”, confundiu um recipiente contendo veneno usado no solo com o medicamento utilizado para tratar os filhos.

Sem perceber o erro, administrou a substância às crianças. Pouco tempo depois, os dois irmãos morreram.

A notícia espalhou-se rapidamente pela comunidade, provocando profunda comoção entre familiares, vizinhos e amigos. O episódio passou a ser lembrado como uma das histórias mais tristes da região metropolitana de Belém

O pai que nunca abandonou os filhos

Se a morte dos meninos marcou a comunidade, o sofrimento do pai tornou-se outro capítulo inesquecível dessa história. A vida dele também acabou naquela noite. Segundo relatos preservados ao longo dos anos e posteriormente registrados pela imprensa paraense, Raimundo jamais conseguiu superar a perda dos filhos.

Consumido pela culpa, ele passou anos vivendo em uma pequena construção próxima ao lado do túmulo dos meninos cheia de brinquedos, no Cemitério São Jorge. Ali permanecia diariamente, cuidando da sepultura e mantendo viva a memória de Marinaldo e Marivaldo.

Para muitos visitantes, aquela demonstração de amor e arrependimento ajudou a fortalecer ainda mais o vínculo emocional entre a história dos irmãos e a população.

O nascimento de uma devoção popular

Com o passar dos anos, algo começou a acontecer. Pessoas que visitavam o túmulo passaram a relatar graças alcançadas após fazer pedidos aos irmãos. Histórias de curas, proteção de crianças e auxílio em momentos difíceis começaram a circular entre familiares, moradores e frequentadores do cemitério. A partir daí nasceu uma devoção popular que se fortaleceu geração após geração.

Brinquedos passaram a ser deixados sobre o jazigo. roupinhas infantis, flores e velas tornaram-se parte da paisagem do local. Muitos visitantes passaram a enxergar os irmãos como intercessores junto a Deus, especialmente em causas relacionadas à saúde infantil.

Os santos populares da Marambaia

Belém possui uma tradição singular de veneração a figuras que ficaram conhecidas como “santos populares”. São personagens cujas histórias, quase sempre marcadas por sofrimento, tragédias ou mortes prematuras, ultrapassaram os limites dos registros históricos e passaram a integrar a fé popular, mesmo sem o reconhecimento das autoridades eclesiásticas para tal. Nesse contexto, Marinaldo e Marivaldo conquistaram um lugar especial.

Ao lado de outras figuras conhecidas dos cemitérios da capital paraense, os irmãos tornaram-se referência de devoção para pessoas que buscam conforto espiritual e esperança diante das dificuldades da vida.

O reconhecimento pela imprensa

Embora a história tenha sido preservada principalmente pela tradição oral, reportagens publicadas pela imprensa paraense ajudaram a registrar aspectos importantes da trajetória dos irmãos.

Matérias sobre os santos populares de Belém confirmaram a narrativa transmitida por décadas pelos frequentadores do Cemitério São Jorge e destacaram a intensa movimentação de devotos que visitam o local, especialmente durante o Dia de Finados.

As reportagens também registraram que Raimundo Nascimento, após sua morte, foi sepultado ao lado dos filhos, encerrando simbolicamente uma história marcada por amor, dor e saudade.

 

  • O autor é titular do Blog, Professor, comunicador social e foi amigo de infância de Marinaldo e Marivaldo.

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