CRÔNICA | Um pouco de Algodoal mora em mim

História e Memória Variedades

Por Emanuel Jadir / Jornalista

Há lugares que a gente apenas visita. Outros, porém, escolhem morar para sempre dentro da gente. Algodoal é assim para mim. Muito antes de entender o que era saudade, eu já conhecia o caminho das marés que levavam ao Arquipélago de Maiandeua que, diga-se de passagem, é uma das mais belas Área de Proteção Ambiental (APA) do Pará. Ali, em Maracană, minha terra natal, construí parte das minhas primeiras lembranças. Dez dos doze irmãos nasceram naquele pedaço de paraíso, e a grande casa de praia que minha familia tinha na ilha, cercada por um imenso terreno repleto de coqueiros, era mais do que um refúgio de férias: era um território cheio de afetos. O vento que atravessava as folhas dos coqueiros parecia anunciar que a vida podia ser mais simples, mais leve e mais feliz.
Lembro-me de ficar todo prosa quando sabia que passaria as férias na ilha.


Mas Algodoal nunca foi feita apenas de praias. Ela sempre foi feita, sobretudo, de gente e de suas histórias.
Era impossível não visitar o pequeno casebre da tia Rosa e do tio dos Reis. A simplicidade da casa contrastava com a riqueza das conversas. Eles contavam histórias que misturavam causos, pescarias, assombrações e lembranças de um tempo em que a ilha parecia conversar apenas com o mar e o céu.
Mas eram as conversas da tia Rosa de que eu mais gostava.
Sem contar o café que ela preparava. Nunca encontrei outro igual. Talvez porque o segredo nunca tenha estado no pó ou na água fervente, mas no carinho com que servia cada xícara, como se estivesse oferecendo um abraço cheio de afeto.
Também faz parte das minhas memórias a querida dona África, amiga da nossa família, cuja presença era sinônimo de acolhimento para alguns dos meus irmãos, como Hedilberto. Da mesma forma, lembro-me da saudosa senhora Marcela, mais conhecida como Maxica, dona de um belo par de olhos que pareciam iluminar qualquer roda de conversa. Sua alegria era contagiante, dessas pessoas que transformam um simples encontro em uma festa sem precisar de música.
E, falando em música, ela gostava de dançar um bom carimbó como ninguém. Lembro-me de que foi eleita Rainha do Jegue Elétrico, bloco de carnaval formado pelos moradores da ilha, que seguiam em cortejo pelas ruas com uma charrete puxada por um jeque, que levava uma caixa de som com muitas marchinhas carnavalescas.
Vale lembrar um dos mais antigos pontos de cultura de Algodoal, que, durante as férias, ganhava um ritmo ainda mais intenso: o Bar do Tralhoto, um verdadeiro templo dedicado, principalmente, ao carimbó e ao brega. Ali, turistas e moradores dividiam o mesmo chão, embalados pelos ritmos paraenses que faziam o corpo esquecer qualquer timidez. Não importava de onde viessem; bastavam alguns minutos para que todos se sentissem filhos da ilha.


E como não falar da famosa Praia da Princesa?
Como esquecer aquela imensidão de areia branca, as dunas desenhadas pelo vento e o azul infinito do mar? Não tem como. Caminhar por ali era como atravessar um cenário encantado. A paisagem carrega consigo a antiga lenda da sereia que teria dado origem ao nome do Lago da Princesa, história repetida por gerações de pescadores nativos e que ajuda a tornar o lugar ainda mais mágico. Na infância, eu acreditava que, em algum fim de tarde, a sereia surgiria entre as águas para confirmar que as lendas também podem morar na realidade.
Quando a noite caía, outros pontos de encontro ganhavam vida: os famosos bares da Lua e da Pedra.
O reggae tomava conta desses ambientes, reunindo veranistas, moradores e viajantes sob o mesmo compasso. As ondas quebravam ao fundo enquanto a música parecia conversar com o vento. Era impossível não sentir que Algodoal possuía um tempo próprio, um relógio que não obedecia às pressas do continente.
Hoje, compreendo que minha ligação com Algodoal vai muito além das lembranças de infância. Ela está nas pessoas que conheci, nos sabores que experimentei, nas histórias que ouvi e nas paisagens que moldaram meu olhar sobre o mundo. Sempre que penso na ilha, não recordo apenas um destino turístico. Recordo um pedaço da minha própria história. Porque há lugares que não cabem no mapa. Eles encontram morada definitiva no coração.
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Enfim, muito destas lembranças devo à minha saudosa mãe, Ana Siqueira, que trabalhou como professora da rede estadual de ensino e ajudou a formar gerações de estudantes, tanto em Algodoal quanto na sede do município de Maracanã, no Colégio Ezequiel Lisboa, onde estudei. Lembro-me de que ela sempre alimentava a contação de inúmeras histórias sobre pessoas e situações que presenciou naquele universo tão singular praiano. Talvez tenha sido com ela que aprendi que alguns lugares nunca deixam de existir dentro de nós, porque estão vivos na memória e nas histórias que escolhemos contar.

 

Imagens: Savio Maiandeua

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