Eleições no Pará | Pesquisas divergem, mas as campanhas dão sinais

Variedades

A corrida pelo Governo do Pará tem apresentado um cenário de números bastante diferentes. Algumas pesquisas colocam Hana Ghassan na frente; outras apontam Dr. Daniel liderando; e a maioria dos levantamentos mostram empate técnico. No meio dessa fotografia ainda em movimento, um detalhe chama atenção: o comportamento das próprias campanhas também pode revelar muito sobre os números que elas acompanham internamente. Até porque pesquisa é recorte de momento, tem metodologia diversa e também períodos diversos.

Essa leitura ganhou uma análise interessante do advogado Elder Júnior – ESPIA AQUI, que resgata um princípio clássico da ciência política, formulado pelo cientista americano Elmer Schattschneider, em 1960: “A definição das alternativas é o instrumento supremo do poder.”

Em outras palavras, quem consegue estabelecer os termos do debate tende a conduzir a conversa. Quem passa boa parte do tempo respondendo à pauta criada pelo adversário pode estar, estrategicamente, correndo atrás.

Segundo a análise de Elder Júnior, Daniel entrou na campanha com um eixo bastante definido: saúde, origem simples – o filho do leiteiro que se forma médico – e crítica à concentração de poder em torno do grupo político de Helder Barbalho. Até aqui, sustenta o articulista, o candidato teria permanecido, em grande medida, dentro dessa narrativa.

Do outro lado, Hana teria apresentado movimentos mais visíveis de aproximação com temas levantados pelo adversário. Um levantamento citado pelo advogado, realizado pelo Instituto Democracia em Xeque, da PUC-Rio, apontava que, até 25 de agosto, a agenda da governadora estava fortemente concentrada na segurança pública. Depois disso, a saúde passou a ocupar espaço maior na comunicação, com promessas de novos hospitais, mutirões de cirurgias e divulgação de números da gestão.

O episódio envolvendo a Águas do Pará também chama atenção. Enquanto Hana vinha apresentando a concessão como uma conquista administrativa, Daniel fazia críticas. Posteriormente, a governadora passou a reconhecer as reclamações sobre cobranças abusivas e orientou consumidores a não pagarem valores considerados indevidos. Independentemente da avaliação política sobre a medida, o movimento mostra que a pauta levantada pelo adversário ganhou espaço no debate.

Há ainda uma terceira mudança observada por Elder: a tentativa de fortalecer a personagem Hana, destacando sua origem em uma família de pequeno comércio, o valor do trabalho e sua trajetória como servidora pública. É uma narrativa que procura responder ao discurso de Daniel sobre concentração de poder e à ideia de “dinastia” política.

Isoladamente, cada movimento pode ter uma explicação própria. Saúde pode ser apenas uma mudança de prioridade. Águas do Pará pode representar uma resposta às reclamações da população. A valorização da história pessoal pode ser simplesmente uma estratégia de comunicação.

Mas, quando os três movimentos aparecem juntos, surge uma leitura possível: a campanha de Hana estaria reagindo com mais frequência às pautas colocadas por Daniel.

E talvez esteja aí uma das disputas mais importantes desta eleição, não apenas quem aparece na frente das pesquisas, mas quem consegue definir os assuntos que o Pará vai discutir até o dia da votação.

No fim, pesquisa é retrato de um momento. Campanha é movimento. E, quando os números divergem, observar para onde cada candidato está levando sua mensagem pode ser tão revelador quanto olhar para a própria pesquisa.

 

Da Redação

Ícaro Gomes

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