373 – O velho rio Maracanã como riqueza natural e identidade no salgado paraense

Variedades

Por Ícaro Gomes

 

O rio Maracanã é daqueles tesouros que carregam a alma do caboclo do nordeste Paraense nas águas barrentas que seguem mansinhas, serpenteando pela mata, pelos campos e pelas cidades que aprenderam a viver no compasso da maré, onde o tempo parece não passar. Nascido lá pelas bandas do sul de Castanhal, o velho Maracanã corta caminhos seguindo no nordeste do Pará em direção ao oceano, desenhando curvas e mais curvas como quem conhece cada pedaço dessa terra de cheiro de chuva, de açaí no paneiro e de povo acolhedor.

Em seu percurso, o rio vai alimentando histórias, culturas, lendas e modos de vida. Passa por áreas de grande riqueza natural e segue banhando municípios que têm no rio uma extensão da própria existência. Em Castanhal, onde nasce, ele ainda é tímido, mas logo ganha corpo e importância, atravessando regiões onde a natureza resiste firme, protegida pelas reservas extrativistas e pelo cuidado das comunidades ribeirinhas.

Mais adiante, o rio Maracanã abraça Santarém Novo, cidade que repousa na margem direita e por onde o rio passa bem na ilharga da sede, já pertinho da foz. Por lá, o rio é estrada, sustento e companheiro do dia a dia. É nele que passam embarcações carregadas de peixe, farinha, camarão e esperança. É dele também que o povo tira inspiração para manter vivas as tradições da cultura popular, as festas do caranguejo e do carimbó e o jeito simples de viver.

O principal afluente do Maracanã é o rio Caripi, que chega pela margem esquerda trazendo ainda mais força para essas águas que mudam conforme o inverno amazônico e o verão paraense. Entre fevereiro e abril, o rio enche, ganha volume e ocupa os campos. Já entre setembro e outubro, baixa suas águas e revela margens, praias e caminhos escondidos pela maré.

Na reta final de sua viagem, o rio encontra Maracanã, município que carrega em seu nome a força dessas águas antigas e do ecoar do papagaio de mesmo nome. O velho rio banha a frente da cidade, já com as águas tonificadas pelo sal do oceano Atlântico que está bem ali na barra. A boa terra terra completa 373 anos no próximo dia 28 de maio, sendo a sexta cidade mais antiga do estado do Pará. Ali, na ilharga da encantadora Ilha de Maiandeua, o rio finalmente se entrega ao Oceano Atlântico, misturando água doce e salgada num espetáculo bonito de ver. É nessa região do Pará que a natureza segue protegida pela presença da Reserva Extrativista Marinha Maracanã e pela Reserva Extrativista Chocoaré-Mato Grosso que engloba Santarém-Novo e São João de Pirabas, guardando manguezais, igarapés, peixes, caranguejos e toda a riqueza que faz do litoral paraense um patrimônio vivo.

O Maracanã não é apenas um rio. Ele é memória, caminho e identidade. É testemunha das madrugadas de pescaria, das canoas deslizando devagarinho, do cheiro do peixe assado nos bons “avuados” na cora e da conversa boa no Beiradão ou na Orla. Um rio que segue contando, em cada curva, a história do povo maracanaense e de toda a região salgada paraense.

 

  • O autor é especialista em educação, consultor da área pública e comunicador social.
  • Imagem da Capa: Ryane Miranda

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