Maré de Lanço e Doideira no Litoral com as águas de março mandando no pedaço

Atualidades Meio Ambiente e Sustentabilidade

Por Ícaro Gomes

 

Março de 26 veio daquele jeito que o caboco da Região Salgada já conhece de longos tempos: céu carregado, chuva grossa caindo sem pedir licença e a maré fazendo das suas. É a temporada em que a natureza resolve apertar o passo e mostrar quem é que manda no litoral do nordeste paraense.

Entre Salinópolis, Maracanã, a ilha de Algodoal e a velha Bragança, o assunto nas beiras de porto, trapiches e barracas de peixe é sempre o mesmo: a tal da maré de lanço, aquela maré viva que chega cheia de valentia, empurrada pelo alinhamento da Lua com o Sol. Os estudiosos chamam de maré de sizígia, mas por essas bandas o povo prefere dizer mesmo é que “a maré deu foi doideira”.

E não é exagero, não.

Quando as águas de março resolvem cair com força — coisa comum na invernada amazônica — elas encontram o oceano Atlântico já todo esticado pelas maiores marés do ano. Resultado: manguezal vira espelho d’água, igarapé se alarga, estrada de areia some e a paisagem muda quase de uma maré pra outra. Lá na ilharga da praia da Marieta, na ilha do Marco, em Maracanã, o lago da trilha atinge seu ponto alto de coloração e fica vermelhinho da silva.

Praia de Ajuruteua

Na praia de Ajuruteua e nas bandas de Algodoal, o espetáculo é daqueles que impressionam até quem nasceu vendo maré subir. A água avança com corrente forte, invade o manguezal, carrega sedimento pra lá e pra cá e redesenha o litoral como se fosse um artista meio apressado. Em algumas áreas, a diferença entre a maré cheia e a vazante pode passar dos dez metros, coisa que só esse pedaço do mundo sabe fazer. Nos rios doces como o Guamá e o Capim, o oceano empurra e esse encontro de gigantes acaba por formar a onda mais longa do mundo, surfada por muita gente, a da Pororoca, geralmente, melhor visualizada na cidade de São Domingos do Capim.

Praia da Princesa, na ilha de Algodoal

Mas se engana quem pensa que é só confusão. Para os manguezais, esse empurrão das águas é quase um banho de renovação. A lama rica em nutrientes se espalha, o caranguejo agradece, o peixe aparece e o ciclo da vida segue firme e forte.

No fim das contas, março na Região Salgada é isso: chuva que cai sem economia, maré que sobe sem cerimônia e natureza trabalhando em ritmo de gigante. Em alguns lugares, como a vila do 40 do Mocoóca, a chegada da maré forte traz transtornos grandes, pois a erosão avança e o trapiche que serve aos pescadores e turistas ameaça desabar.

Praia na vila de Mocooca, Maracanã

E enquanto a ciência explica o alinhamento da Lua com o Sol, o pescador ali no “rancho de pesca” resume com a sabedoria de quem vê o fenômeno todo ano:

— “Rapaz… quando junta água de inverno com maré de lanço, só digo uma coisa: segura o casco que a maré vem com doideira.

 

  • O autor é especialista em educação, administrador, comunicador social, titular do Blog e sócio benemérito da República do Avuado.

Deixe um comentário