GABRIELLA EMIM – O que são ondas de calor e quais seus impactos na região amazônica?

Meio Ambiente e Sustentabilidade

Na Plataforma POLITIZE! a jornalista maracanaense Gabriella Emim dos Santos, publicou uma série com diversos textos acerca do que são ondas de calor e quais seus impactos na região amazônica.

O Blog traz durante a semana em seis capítulos o artigo da Gabi. A jornalista atualmente reside em São Paulo, onde trabalha e avança na pós-graduação.

 

As ondas de calor deixaram de ser um fenômeno passageiro e se consolidaram como um dos maiores desafios climáticos do nosso tempo. Seus impactos atingem desde a saúde pública até a agricultura e a infraestrutura das cidades, aprofundando desigualdades sociais e ambientais.

No caso da região amazônica, onde o calor extremo se soma ao desmatamento e à degradação ambiental, os efeitos se tornam ainda mais críticos e comprometem a resiliência do bioma e das populações urbanas. Não se trata apenas de enfrentar dias quentes, mas de lidar com um fenômeno cada vez mais frequente e duradouro, resultado direto do aquecimento global.

Neste texto, explicamos o que são as ondas de calor, como elas afetam a saúde de quem vive em pequenas cidades e em grandes metrópoles, e quais medidas podem ser implementadas na estrutura urbana e nas políticas públicas para amenizar seus efeitos negativos.

Este conteúdo integra a trilha do Projeto Amazônia Urbana, uma iniciativa que busca aprofundar o entendimento sobre os desafios e transformações ambientais das cidades na região amazônica.

O que são ondas de calor?

Embora seja comum associar o termo a qualquer período de calor intenso, a definição científica é mais precisa. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) classifica como onda de calor um período de cinco ou mais dias consecutivos em que a temperatura máxima diária ultrapassa em pelo menos 5 °C a média histórica daquela região para o mês.

Esse fenômeno ocorre principalmente pela presença de massas de ar seco associadas a bloqueios atmosféricos (quando massas de ar impedem a chegada de frentes frias), mantendo as temperaturas elevadas por vários dias. Embora sejam mais comuns no inverno, esses bloqueios também podem acontecer durante o verão, ampliando o risco de calor extremo.

Pessoa andando no meio de chafariz urbano, utilizado para minimizar o calor. Texto: O que são ondas de calor?
Chafariz urbano para minimizar calor. Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil.

As mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global têm tornado as ondas de calor cada vez mais frequentes, duradouras e severas. Em 2024, por exemplo, o Brasil registrou ondas de calor em todos os meses do ano.

Segundo artigo publicado na revista Frontiers in Climate2023 foi o ano mais quente já registrado desde o período pré-industrial (1850–1900). Dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que a intensidade e a frequência de dias mais quentes, incluindo episódios de ondas de calor, vêm aumentando globalmente desde 1959.

Além do calor recorde, 2024 também foi marcado por uma sucessão de eventos climáticos extremos em todo o país, como o desastre das chuvas no Rio Grande do Sul, a seca histórica na Amazônia com incêndios que devastaram 27,6 milhões de hectares, uma área equivalente a todo o estado do Tocantins, segundo dados do MapBiomas.

Meteorologistas apontam que o aumento dessas anomalias climáticas reflete a influência do aquecimento global e fenômenos como El Niño, e reforça os alertas para verões cada vez mais quentes e chuvosos no país.

No Brasil, um levantamento sobre as mudanças climáticas mostrou que o número de dias com ondas de calor aumentou oito vezes nos últimos 60 anos: de 7 dias, entre 1961 e 1990, para 52 dias no período de 2011 a 2020. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou nove ondas de calor em 2023, oito em 2024 e, nos dois primeiros meses de 2025, já havia contabilizado três episódios.

“A onda de calor é um desastre negligenciado no Brasil e na maior parte das regiões tropicais”, alerta a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Renata Libonati. Segundo ela, a sociedade tende a ignorar os riscos porque não há destruição visível, como em enchentes ou deslizamentos de terra.

De acordo com Renata, o país está muito atrasado no enfrentamento dessa questão e lembra que a Europa só passou a tratar o tema com mais atenção após a onda de calor de 2003, que causou cerca de 70 mil mortes. Desde então, países europeus vêm adotando protocolos de enfrentamento, medidas de prevenção, adaptações urbanas e sistemas de alerta à população.

Outro fator que agrava esse cenário é o El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial e que altera os padrões de circulação atmosférica global.

intensificação do El Niño em 2023 e 2024 coincidiu com os períodos de maior intensidade das ondas de calor no Brasil, resultando em episódios mais severos e duradouros.

Consideradas um fenômeno climático extremo, as ondas de calor têm impacto direto na vida da população. Além de causarem crises na saúde pública, estão associadas ao aumento de queimadas em regiões como o Pantanal e a Amazônia, onde a fumaça intensifica ainda mais os efeitos do calor extremo.

Na próxima postagem: Como as ondas de calor têm afetado as cidades da região amazônica?

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