Por Marcelo Botelho
Henrique Botelho,
Eterno “Rosenbergui”
Hoje acordei pela madrugada lembrando de você, querido Tio. Se estivesse em vida, estaria lhe ligando para lhe desejar os parabéns pelo aniversário.
Fico imaginando o telefone chamando, você atendendo com aquela voz firme e ao mesmo tempo bem-humorada, e eu dizendo: “Parabéns, Olivar Henrique “Rosenbergui” Botelho D’Oliveira!”. E a conversa certamente se estenderia… porque contigo nunca era só um cumprimento — era sempre uma aula de vida disfarçada de prosa.
E tu certamente riria daquele teu jeito meio maroto, meio sábio, como se dissesse que idade é só detalhe quando a gente viveu com intensidade, lembrando de um causo que tinha relação com isso.
Lembro de minhas idas e vindas em Maracanã. Várias viagens para reformar a sepultura da família Botelho. Pois ali, além de meu pai, estão seus pais, avós, irmãos,… raízes profundas fincadas na terra que nos ensinou o valor da memória. Eu lavava as pedras e colunas, para aos poucos, ficar dentro do padrão de homenagear nossos antepassados. E tu, sempre prático e generoso, já ia organizando o almoço, no espaço do seu lar, no bairro acolhedor da Campina.
Geralmente uma caldeirada. Daquelas feitas com paciência, cheiro verde picado na hora, conversa correndo solta e panela borbulhando como se também participasse da prosa.
Mas o que mais me impressionava não era só tua cozinha — era teu dom de reunir mundos.
Em um desses almoços, lembro-me que sentaram à mesa um pastor evangélico e o pároco da cidade. E ali estavam os dois, partilhando comida, vinho e conversa. Falavam de religião, riam de causos antigos, discordavam com respeito, lembravam episódios da política local, comentavam o mundo como quem entende que fé e amizade não precisam competir.
E tu ali, no centro de tudo, costurando pontes invisíveis entre diferentes camadas da sociedade. Tinhas esse poder raro: transformar diferenças em convivência. Fazer do almoço um território neutro onde todos eram apenas pessoas, não tinha castas sociais que os separavam.
Não era só comida. Era comunhão.
Hoje, no teu aniversário de 61 anos de idade, eu volto mentalmente àquela mesa. Volto ao cheiro da caldeirada, ao barulho dos copos se tocando, às gargalhadas que enchiam o quintal. E percebo que o que ficou não foi apenas a lembrança de um encontro — foi a lição.
Tu me ensinaste, sem discurso e sem formalidade, que tradição se honra cuidando dos que vieram antes, que fé pode conversar, que política pode ser debatida sem perder o afeto, e que uma mesa posta é, muitas vezes, o melhor manifesto de união.
Se hoje estivesses aqui, estaríamos brindando juntos.
Mas como não estás fisicamente, o brinde é em tua memória, estimado tio.
Momentos assim viram eternidade dentro da gente.
E a saudade, embora doa, também aquece.
Feliz aniversário, Henrique Olivar Botelho D’Oliveira.
Um grande beijo.

