Por Gerson Ícaro Gomes
Adoecimento de professores acende alerta nas escolas brasileiras: saúde mental se torna principal causa de afastamentos da sala de aula – ansiedade, depressão e síndrome de burnout
A missão que sempre inspirou, apaixonou, que antes era vista como vocação, hoje tem se transformado em uma profissão marcada pelo desgaste emocional e a doença. O adoecimento de professores em sala de aula já é considerado um dos maiores desafios da educação brasileira contemporânea, impulsionado principalmente pelos transtornos mentais.

Dados recentes revelam um cenário preocupante. No Brasil, os afastamentos por problemas psicológicos cresceram de forma significativa nos últimos anos, com ansiedade, depressão e síndrome de burnout – esgotamento profissional crônico, caracterizado por exaustão física/mental, por estresse crônico no trabalho, reconhecida pela OMS como doença ocupacional, os sintomas incluem fadiga, irritabilidade, dor de cabeça e insônia – liderando as causas médicas entre os docentes. Estudos apontam que o perfil do adoecimento mudou: atualmente, quadros ansiosos já representam até 100% dos afastamentos em determinados níveis de ensino, demonstrando a intensidade da pressão vivida pelos educadores.
O estado de São Paulo se tornou o maior retrato dessa crise nacional. Apenas entre janeiro e setembro de 2025, 25.699 professores da rede estadual foram afastados por transtornos mentais, média de aproximadamente 95 licenças médicas por dia.
O fenômeno não é isolado. Em todo o país, os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, somando centenas de milhares de licenças médicas anuais. No caso específico da educação, o crescimento do adoecimento acompanha mudanças profundas no ambiente escolar, cada vez mais marcado por cobrança por resultados, conflitos sociais e aumento das demandas emocionais sobre o professor.
Além disso, estudos educacionais mostram que a precarização das relações de trabalho também contribui para o desgaste psicológico. Em dez anos, as redes estaduais brasileiras perderam cerca de 36% dos professores efetivos, ampliando vínculos temporários e a insegurança profissional — fator associado ao aumento do estresse ocupacional.
Pará: realidade semelhante, mas menos visível

No estado do Pará, embora haja menor divulgação sistematizada de dados públicos, sindicatos e especialistas em educação relatam crescimento constante de afastamentos por problemas emocionais entre professores das redes estadual e municipal.
O Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Educação – SEDUC -, estabeleceu como prioridade recente deixar as últimas posições nos indicadores oficiais da educação brasileira, especialmente no IDEB — Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Para alcançar esse objetivo, foi implantada uma verdadeira força-tarefa que, na prática, acabou recaindo sobre uma cobrança intensa e exaustiva dirigida aos professores, sem que houvesse investimentos proporcionais em infraestrutura escolar, equipamentos ou materiais pedagógicos. Soma-se a esse cenário uma mudança significativa no processo avaliativo: a reprovação escolar foi praticamente eliminada, tornando a aprovação anual automática, independentemente do desempenho acadêmico dos estudantes e a frequência. O resultado apareceu rapidamente nos números “maquiados“. A estratégia produziu efeitos estatísticos expressivos, e o Pará registrou crescimento histórico no IDEB de 2023 — divulgado em 2024 — saltando da 26ª para a 6ª colocação no ranking nacional do ensino médio, um avanço que, para críticos e especialistas, levanta debates sobre os critérios e a efetiva qualidade da aprendizagem medida pelos indicadores. Mais do que isso, nas escolas, todos perceberam que não passou de mera “maquiagem” dos números.
Educadores paraenses convivem diariamente com desafios que ampliam o desgaste físico e emocional da profissão. Longas distâncias nos municípios – alguns professores viajam de barco, canoas, cascos, rabetas, carroças, ônibus, caminhão, bicicleta, cavalo, motocicleta, entre outras formas de deslocamento, para chegar nas escolas; infraestrutura escolar limitada; necessidade de manter múltiplos vínculos empregatícios e a crescente pressão social e familiar dentro do ambiente escolar tornam a rotina docente ainda mais exaustiva. Soma-se a isso a ausência de equipes permanentes de apoio psicológico nas escolas, fator que agrava o sofrimento silencioso dos profissionais. A combinação dessas condições coloca os professores da região Norte entre os mais vulneráveis ao esgotamento profissional, embora a dimensão real do problema ainda permaneça subnotificada quando comparada aos grandes centros do país.
O que está acontecendo dentro das salas de aula?

Especialistas em educação apontam que o adoecimento docente está diretamente relacionado a fatores estruturais cada vez mais presentes na rotina escolar, como a sobrecarga de trabalho, salas superlotadas, episódios de violência, acúmulo de funções administrativas, baixa valorização salarial e a instabilidade decorrente de contratos temporários. Dentro das salas de aula, o papel do professor deixou de se limitar ao ensino de conteúdos, passando a incluir a mediação de conflitos, orientação emocional de alunos, funções sociais improvisadas e demandas burocráticas constantes como relatórios, planilhas, alimentação de dados em plataformas criadas. Além disso, a jornada profissional não termina ao fim do expediente escolar: correção de atividades, elaboração de planejamentos, relatórios, avaliações e atendimento a responsáveis se estendem para o ambiente doméstico, ampliando o tempo de trabalho e reduzindo períodos de descanso. Ressaltando ainda que a grande maioria das escolas obriga professores a cumprirem horário que poderiam ser destinados ao descanso. A escola passou a absorver problemas sociais complexos — violência, desigualdade, fragilidades familiares e impactos pós-pandemia — sem que a estrutura institucional acompanhasse essa transformação.
Um alerta para o futuro
O adoecimento docente ultrapassa o campo individual e passa a comprometer diretamente a qualidade do ensino, a continuidade pedagógica e o próprio desenvolvimento dos estudantes. Especialistas defendem a adoção urgente de políticas permanentes de saúde mental nas escolas, redução da sobrecarga de trabalho, intensificação da valorização salarial, implantação de equipes multidisciplinares de apoio e programas efetivos de prevenção ao burnout. Sem investir no cuidado com quem ensina, alertam os estudiosos, o sistema educacional brasileiro corre o risco de enfrentar um colapso silencioso, com impactos duradouros para toda a sociedade.
- O autor é Licenciado Pleno em Pedagogia, Administrador, comunicador social e Titular do BlOg.

