Belém (PA) – A morte de Bernardo Almeida Cavaleiro de Macedo, o jovem de 23 anos, colocou novamente em pauta um tema sensível e urgente: os limites éticos da prática médica e os riscos de uma saúde conduzida sob lógica mercantil. O caso, ocorrido em Belém (PA) em 10 de agosto de 2023, ganhou novos desdobramentos após denúncia formal do Ministério Público, que aponta possíveis falhas graves na condução de um procedimento médico considerado, segundo a acusação, não urgente.
De acordo com a denúncia, o cirurgião torácico Dr. Augusto Cezar Sales e o anestesista Dr. Cesar Collyer foram acusados pelo crime de homicídio culposo majorado — quando não há intenção de matar, mas há agravantes relacionados à conduta profissional — com base no artigo 121, §3º e §4º do Código Penal Brasileiro. O processo já foi recebido pela Justiça, e os acusados foram citados para apresentar resposta.
O que sustenta a acusação
Segundo o Ministério Público, o procedimento realizado em Bernardo teria sido classificado como urgente sem que houvesse necessidade imediata comprovada. A acusação aponta que o paciente foi direcionado para atendimento em unidade hospitalar onde um dos médicos possuía vínculo empresarial com equipamentos utilizados, o que, em tese, permitiria dupla remuneração.
A denúncia também descreve uma série de supostas falhas técnicas e protocolares, entre elas ausência de exames pré-operatórios adequados, falta de avaliação formal de risco cirúrgico e inexistência de visita pré-anestésica. Ainda conforme os autos, teriam ocorrido intercorrências graves durante o procedimento — como perfuração pulmonar e lesões em vias respiratórias — que não teriam sido devidamente registradas em prontuário nem comunicadas integralmente à equipe de UTI.
No caso do anestesista, o Ministério Público sustenta que houve classificação de risco incompatível com o quadro clínico, além de dificuldades no manejo das vias aéreas sem o devido repasse de informações à equipe de continuidade do atendimento.
As condutas descritas, segundo a acusação, contribuíram de forma decisiva para o agravamento do estado de saúde de Bernardo e para o desfecho fatal.
Justiça recebe denúncia
O juiz de Direito Marcus Alan de Melo Gomes, da 9ª Vara Criminal, acolheu o parecer do Ministério Público e recebeu a denúncia, dando início à fase de resposta dos acusados. O mérito das acusações ainda será analisado ao longo do processo, com garantia de contraditório e ampla defesa.
Do luto à mobilização
Diante da perda, familiares afirmam ter transformado a dor em mobilização. O caso passou a ser apresentado por eles como um alerta público sobre a necessidade de reforçar práticas médicas mais humanas, transparentes e centradas no paciente.
Para a família, a discussão vai além de um processo judicial: envolve refletir sobre modelos de atendimento, conflitos de interesse e protocolos de segurança. A defesa de uma medicina ética, responsável e empática tornou-se a principal bandeira levantada após a tragédia.
Enquanto o caso segue sob análise do Judiciário, ele já provoca uma discussão mais ampla: como equilibrar tecnologia, gestão e sustentabilidade financeira sem perder de vista o valor central da medicina — o cuidado com a vida.

