A TRAVESSIA DE HELIANA BARRIGA, A MULHER-POESIA

Travessia

Por Ícaro Gomes

 

A arte e a educação POPULAR perderam uma presença luminosa. Heliana Barriga parte deixando um rastro de sensibilidade, coragem criativa e profundo compromisso com a vida. Educadora por vocação e artista por essência, ela transformou espaços educadores em territórios de imaginação, encontros em palco, palavras em abrigo. Sua trajetória foi dedicada à educação popular, à cultura e ao despertar de novas gerações — sempre com delicadeza, consciência e esperança. A literatura infantil era seu maior compromisso, assim como a defesa do meio ambiente.

Heliana natural da cidade de Castanhal, era dessas pessoas que ensinavam com o olhar e com o gesto. Multiartista, poeta com o pé no teatro, contadora de histórias, defensora do meio ambiente e da humanidade, ela acreditava na arte como ferramenta de cuidado e de mudança. Seu trabalho não buscava apenas formar alunos, mas tocar pessoas — provocar pensamento, emoção e pertencimento.

Bem antes da pandemia de Covid 19, tive o privilégio de conhecer a Heliana, numa visita a sua casa, que era cheia de encantos, cores e felicidade. Fiquei encantado, ao lado da esposa professora Fernanda Cristo, que a foi convidá-la para encantar com poesias um evento na escola que dirigia no bairro Novo Estrela em Castanhal. Ela aceitou o convite e podemos conhecer um pouco de sua magnifica obra. O fotógrafo oficial do Blog, Sandro Barbosa, foi o primeiro a postar fotos em homenagem póstuma de Heliana, num registro histórico declamando poesias. O governo do Estado reconheceu a importância da Obra da educadora, homenageando-a na Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, na edição de 2023, ao lado do escritor Salomão Laredo.

O registro de Sandro na hora da declamação de poesia

Fica o legado de uma mulher-poesia: intensa, simbólica, humana. Daquelas que não cabem apenas na memória — permanecem na influência, na inspiração e nos ecos de tudo que ajudaram a florescer. Que seu brilho agora siga iluminando outros céus, como quem continua criando mundos com luz e palavra.

A seguir, três poemas de Heliana Barriga, organizados como registro de sua voz artística:

Entre a Palavra e o Gesto

Entre a palavra e o gesto, o tempo.
Entre o gesto e o gesto, a palavra de honra
Desonra a palavra.
Entre a palavra e a palavra
O gesto indigesto.
Entre o gesto e a palavra
Calças curtas!

Eu Nua

Eu nua
Com uma bandeira
Plantada às costas, minhas asas
Vespa sobrevoadora de vômitos urbanos
Trago joias e silêncios
Vícios e ventres
Vísceras e almas.
Acordo flor com hálito de estrela
Almoço fada faxineira
E durmo bruxa com bafo de lança.

O Copo

O homem se refina e faz o copo.
O homem se orgulha do copo.
O homem presenteia a mulher com o copo.
A mulher se orgulha do copo e do homem.
A mulher sem querer, quebra o copo.
O homem se enfurece, cata o caco, fere o rosto da mulher que vira um caco
E caco fere.

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