Na sala de aula onde o silêncio costuma ser interpretado como ausência, uma educadora paraense decidiu ouvir o que ninguém escutava.
Em Belém, a professora Noah Chiavenato construiu um método que começa justamente onde muitos sistemas educacionais desistem: nas crianças autistas não-verbais. Ali, onde a fala não chega, ela encontrou caminhos para a leitura, para a escrita e, sobretudo, para a dignidade de aprender.
A iniciativa, reconhecida nacionalmente no Prêmio Inclusão em Neuroeducação Brasil, rompe com uma lógica antiga e ainda muito presente nas escolas: a de que falar é condição para alfabetizar. Para Noah, essa ideia não apenas é limitada — é injusta. Seu trabalho prova que a ausência de linguagem oral não significa ausência de pensamento, de compreensão ou de desejo de se comunicar.
O método desenvolvido por ela combina fundamentos da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) com recursos da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Em vez de exigir que a criança fale para depois aprender, o processo inverte a ordem: oferece estímulos visuais, táteis e sensoriais para que o letramento se construa no ritmo de cada aluno. Letras deixam de ser códigos abstratos e passam a ser experiências concretas.
No centro dessa proposta está o IAR-TEA, instrumento criado pela própria educadora para mapear habilidades essenciais antes da introdução formal das letras. A ideia é simples e revolucionária: preparar o terreno emocional, cognitivo e funcional para que a alfabetização seja menos frustrante e mais significativa. Cada avanço, por menor que pareça, torna-se uma conquista real.

O trabalho é desenvolvido no Instituto Educacional Chiavenato, em Belém, onde resultados práticos começam a transformar trajetórias escolares antes marcadas pela exclusão. Crianças que eram vistas como “impossíveis de alfabetizar” passam a reconhecer palavras, símbolos, sentidos — e, com isso, ampliam sua autonomia e participação na vida escolar.
Em entrevista ao Portal Estado do Pará Online, Noah explicou que o método nasceu da vivência diária em sala de aula. “O método surgiu ao ver que nossas crianças com autismo não verbais não eram, nas escolas, beneficiadas com o método de alfabetização tradicional. Eles precisavam ir além do somente decodificar caracteres. Eles precisavam ler com compreensão e, como apoio, usar esse processo para desenvolver comunicação”, afirmou.
Os números reforçam a urgência dessa mudança. Dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) indicam que entre 25% e 30% das crianças com Transtorno do Espectro Autista são não-verbais ou minimamente verbais. Ou seja: milhões de estudantes em todo o mundo enfrentam diariamente um sistema que não foi desenhado para eles.
Ao unir ciência, sensibilidade e prática pedagógica, Noah Chiavenato oferece mais do que um método. Ela oferece uma nova pergunta à educação: e se o problema nunca esteve na criança, mas no modo como insistimos em ensinar?
Talvez seja essa a maior lição de sua trajetória: aprender a alfabetizar, antes de tudo, é aprender a escutar — mesmo quando não há palavras.
Da Redação
A Estagiária – Fonte: EPOL

